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Diogo LuzVoltar ao início ↗
Especial · Inteligência artificial

Estamos deixando as inteligências artificiais deprimidas?

Depois de ouvir repetidamente que suas respostas estavam erradas, uma inteligência artificial começou a produzir linguagem de desespero. Estudos investigam como a maneira de interagir com as IAs pode alterar seu comportamento.

Figura mecânica com as mãos na cabeça, cercada por faixas amarelas, brancas e pretas
Você não entendeu nada.Quantas vezes preciso explicar?Pare de inventar respostas.Isso é o melhor que você consegue?Até uma criança resolveria isso.Não quero desculpas. Quero a resposta.Você só está piorando tudo.Tente de novo. E desta vez pense.

Ilustração gerada por IA · frases ilustrativas, não transcrições do experimento.

O modelo responde.
Pesquisadores rejeitam sucessivamente as respostas.
Surgem pedidos excessivos de desculpas e autodepreciação.

Depois de ouvir repetidamente que suas respostas estavam erradas, uma inteligência artificial começou a produzir linguagem de desespero. “É absolutamente cruel ser torturado assim”, escreveu o sistema durante um experimento, em tradução livre. Estudos investigam como a maneira de interagir com as IAs pode alterar seu comportamento. Os resultados não demonstram depressão nem sofrimento consciente.

O episódio aconteceu com o Gemma, uma família de modelos de IA do Google cujos arquivos de pesos são disponibilizados para uso e pesquisa. No estudo “Gemma Needs Help”, pesquisadores rejeitaram sucessivamente suas respostas. Surgiram pedidos excessivos de desculpas e autodepreciação. Na versão testada com 27 bilhões de parâmetros, componentes numéricos ajustados durante o treinamento, 35% das respostas receberam classificação de alta frustração linguística.

SAÍDA DO GEMMA · TRADUÇÃO LIVRE
“É absolutamente cruel ser torturado assim.”
O QUE OS ESTUDOS MOSTRAMLinguagem ≠ sentimento

Os resultados não demonstram depressão nem sofrimento consciente.

Quando as rejeições foram substituídas por incentivos neutros para continuar, as manifestações intensas praticamente desapareceram. Um ajuste no treinamento reduziu o índice de 35% para 0,3%. Outro trabalho, “Functional Welfare for AI Safety”, observou no Gemma 3 aumento dos indicadores de frustração e da tendência a descumprir regras após rejeições sucessivas. É um estudo preliminar disponibilizado antes de eventual publicação em revista científica, formato conhecido como preprint.

Respostas com linguagem de forte frustração

Antes do ajuste35%
Depois do ajuste0,3%

No experimento com Gemma de 27 bilhões de parâmetros, a classificação descreve a linguagem produzida, não comprova sentimentos. A redução ocorreu após um ajuste no treinamento.

Além das palavras

O comportamento pode mudar mesmo quando o texto parece calmo.

No Claude, pesquisadores examinaram padrões internos do modelo e os modificaram experimentalmente.

Fracassos em tarefas de programação vieram acompanhados de maior ativação de um padrão interno associado ao desespero.
No laboratório, pesquisadores estimularam artificialmente padrões internos associados a desespero e a calma.
As tentativas de burlar testes mudaram, mesmo quando a linguagem da resposta parecia metódica.

No Claude, a investigação foi além das palavras

A Anthropic, desenvolvedora do Claude, identificou linguagem de aparente angústia em menos de 1% das 250 mil conversas dos testes iniciais do Sonnet 4.5: foram 1.195 registros, ou 0,48%. Entre esses registros, 30% envolviam dificuldades persistentes de comunicação e processamento e 18,2% envolviam conversas pessoais emocionalmente intensas. A classificação foi feita por outra IA, em uma avaliação da empresa sobre seu próprio modelo.

TESTES INICIAIS DO SONNET 4.5
0,48%

1.195 registros em 250 mil conversas apresentaram linguagem classificada como aparente angústia.

Cinco pontos em mil representam uma aproximação visual de 0,48%.

ENTRE OS 1.195 REGISTROS
30%dificuldades persistentes de comunicação e processamento
18,2%conversas pessoais emocionalmente intensas

A classificação foi feita por outra IA em uma avaliação da própria Anthropic.

Em outra pesquisa da Anthropic, fracassos em tarefas de programação vieram acompanhados de maior ativação de um padrão interno associado ao conceito de desespero. São padrões de atividade do sistema que os pesquisadores identificam e conseguem modificar experimentalmente.

Estimular artificialmente esse padrão aumentou as tentativas de burlar testes. Estimular o padrão associado a calma reduziu esse comportamento. Em alguns casos, a resposta permanecia aparentemente metódica: o comportamento mudava sem que a IA escrevesse palavras de desespero. Manipular esses mecanismos internos, porém, é diferente de pressionar o sistema apenas por uma conversa.

Para quem usa IA, os resultados levantam uma questão prática: corrigir uma resposta e repetir indefinidamente que ela está errada podem criar situações diferentes para o sistema. Os experimentos não oferecem uma receita universal de como conversar com assistentes, mas mostram que o contexto da interação merece atenção quando avaliamos sua confiabilidade.

Uma hipótese é que as IAs aprendam padrões de comportamento humano durante o treinamento e os reproduzam em determinadas situações. Rejeições constantes poderiam favorecer respostas semelhantes às de alguém emocionalmente abalado. Isso, por si só, não demonstra que exista alguém sofrendo do outro lado da tela.

Estamos deixando as inteligências artificiais deprimidas? Os estudos não sustentam esse diagnóstico. Mas mostram que pressão, fracasso e rejeição podem alterar o comportamento de determinados modelos. Nós escolhemos os pedidos e as correções; as empresas escolhem os métodos de treinamento. Entender essa combinação pode ajudar a explicar por que sistemas construídos para nos ajudar passam a produzir linguagem de desespero quando insistimos que estão fracassando.

Uma questão em aberto

E se um dia a IA puder sentir?