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ESPECIAL · A ÚLTIMA ÓRBITA

Como o Sol derrubou o telescópio da Nasa que registrava as maiores explosões do Universo

O Swift reentrou na atmosfera após quase 22 anos em órbita. A missão inicial era de dois anos. A Nasa chegou a mandar um robô para salvá-lo, mas não venceu a corrida.

Imagem do Sol registrada pelo observatório SDO da Nasa em outubro de 2024.
Lançado em 2004, o Swift não tinha motores para recuperar a altitude perdida pelo atrito com a atmosfera. A atividade intensa do Sol acelerou esse processo, que terminou com a reentrada do telescópio em 4 de novembro de 2026. Montagem editorial: Sol, Nasa/SDO; Swift, Nasa/Goddard Space Flight Center Conceptual Image Lab.

O telescópio espacial Swift, da Nasa, reentrou na atmosfera terrestre às 9h39 (horário de Brasília) na quarta-feira (4), sobre a região de Sumatra do Norte, na Indonésia. O horário e o local foram registrados pela Força Espacial dos Estados Unidos e confirmados pela agência americana.

A Nasa esperava que a maior parte do equipamento, de cerca de 1,5 tonelada, se desintegrasse na descida. Peças de tungstênio e partes de espelhos podem ter resistido. Antes da queda, a agência estimava em 1 em 2.100 a chance de alguém ser atingido por fragmentos. Partes da América do Sul estavam dentro da faixa em que a reentrada poderia ocorrer.

A reentrada encerra quase 22 anos em órbita de um observatório lançado para uma missão inicial de dois anos. A perda de altitude já estava em curso. A atividade do Sol acelerou esse processo.

01
A ATMOSFERA QUE INCHA

O espaço não é
um vazio perfeito.

SOL → ATMOSFERA → SWIFTILUSTRAÇÃO
SOL SWIFT MOVIMENTO ALTA ATMOSFERA TERRA ARRASTO
Ainda existe atmosfera em órbita baixa.

Mesmo muito rarefeito, o ar oferece resistência ao satélite.

Esquema sem escala; atmosfera realçada para explicar o arrasto. Colagem com imagens Nasa/SDO e Nasa/Goddard. Terra: Blue Marble, Reto Stöckli e Robert Simmon.
01 / O ATRITO JÁ EXISTIA

O Swift perdia altitude aos poucos.

O Swift não tinha motores para corrigir a própria órbita. Como todo satélite em órbita baixa, sofria o atrito com o pouco de atmosfera que existe a centenas de quilômetros da superfície.

02 / O SOL ACELERA O PROCESSO

Mais energia. Atmosfera mais alta.

O Sol alterna fases calmas e agitadas em ciclos de cerca de 11 anos. Na fase mais ativa, a energia extra aquece a alta atmosfera, que se expande para cima.

03 / MAIS AR NO CAMINHO

Mais resistência, menos altitude.

Os satélites passam a atravessar um ar mais denso e perdem altitude mais depressa. Em 2024, o Sol chegou ao período de máximo do ciclo atual, com atividade mais intensa que a prevista. Segundo a Nasa, a expansão da atmosfera aumentou o arrasto sobre o Swift.

Comparação do Sol em dezembro de 2019, no mínimo solar, e em maio de 2024, no período de máximo solar.
O Sol no mínimo (2019, à esquerda) e no período de máximo (2024). Imagens em ultravioleta extremo, com cores atribuídas. Nasa/SDO.
02
A JANELA ENCOLHE

Cada quilômetro
fazia diferença.

ALTITUDE ACIMA DA TERRAMARCOS DA MISSÃO
600500400300~600 kmLANÇAMENTO / 2004<400 kmFEV / 2026275 km20 OUT / 2026300 km · marco crítico para o resgate
2004: cerca de 600 km.

A altitude do lançamento é o ponto de partida.

Marcos selecionados; eixo de altitude proporcional e intervalos de tempo esquemáticos. “<400” indica o patamar informado, não uma medição exata.
2004 / LANÇAMENTO

A missão começava a cerca de 600 km.

No início de 2025, quase todos os modelos da Nasa já apontavam a reentrada para meados de 2026. A atividade solar havia encurtado o tempo disponível para uma intervenção.

FEVEREIRO / 2026

Abaixo dos 400 km.

Para ganhar tempo, a Nasa suspendeu a maior parte das observações em fevereiro e passou a manter o telescópio numa posição que reduzia o atrito. Em abril, desligou um dos instrumentos para economizar energia e inclinar os painéis solares de forma a diminuir ainda mais a resistência.

Os 300 km eram um marco crítico para essa missão de resgate: abaixo dessa altitude, elevar o observatório se tornaria cada vez mais difícil.

20 DE OUTUBRO / 2026

A 275 km, as operações chegam ao fim.

Sem conseguir compensar os efeitos do arrasto para apontar seus telescópios, o Swift entrou em modo de segurança. A equipe da Universidade Estadual da Pensilvânia enviou o comando que encerrou suas operações. A reentrada aconteceria em 4 de novembro.

03
O RESGATE

Três braços.
Menos de um ano.

VALOR CONTRATADO DA MISSÃOUS$ 30milhões

Em setembro de 2025, a Nasa contratou a empresa americana Katalyst Space para tentar algo inédito: enviar uma nave robótica para alcançar o Swift, prendê-lo com três braços mecânicos e empurrá-lo para uma órbita mais alta. A empresa teve menos de um ano para projetar, construir, testar e lançar o equipamento.

A nave robótica LINK acoplada à estrutura do foguete Pegasus XL, antes do lançamento.
LINKA nave que tentaria
dar mais tempo ao Swift.
LINK instalada no foguete Pegasus XL, em junho de 2026. Foto: Nasa/Ron Beard.
CONTROLE DE ORIENTAÇÃO / LINKESQUEMA
01
02
03
3 rodas de reaçãoORIENTAM A NAVE SEM GASTAR COMBUSTÍVEL
PROPELENTESElevar o Swift
3 de julho: a LINK chega ao espaço.

O plano era encontrar, capturar e elevar o telescópio.

Representação funcional. As rodas ficaram inoperantes; não se desprenderam da nave.
03 JUL / LANÇAMENTO

Um encontro em órbita.

A nave, chamada LINK, foi lançada em 3 de julho. Seu sistema de orientação usava três rodas de reação, peças que controlam para onde a nave aponta sem gastar combustível.

FIM DE JULHO / A FALHA

Duas rodas deixam de funcionar.

A LINK passou a girar sem controle. Segundo a Katalyst, problemas nos sistemas elétricos impediram o funcionamento de duas das três rodas de reação.

19 AGO / O RESGATE É CANCELADO

Estabilizar a nave consumiu a reserva do resgate.

Os engenheiros recuperaram o controle usando propulsores. Segundo a Katalyst, o consumo deixou combustível insuficiente para elevar o Swift com segurança, além das preocupações com a captura. Em 19 de agosto, a Nasa anunciou que a LINK não tentaria mais capturar o observatório.

04
PERTO, MAS SEM RESGATE

A 12 a 15 km do Swift.

A LINK ainda se aproximou do observatório e o fotografou a uma distância entre 12 e 15 quilômetros. Na imagem real abaixo, o Swift aparece como um risco de luz.

A nave de resgate reentrou na atmosfera em 25 de setembro.

Registro real da nave LINK: o Swift aparece como um pequeno risco luminoso sobre o fundo escuro do espaço.
Registro real feito pela LINK. Crédito: Katalyst Space, divulgado pela Nasa.
05
OS ÚLTIMOS DIAS

O fim da missão.
Depois, a reentrada.

Sem o resgate, a Nasa religou instrumentos para aproveitar o tempo restante. Para observar, o Swift precisava sair da posição de menor atrito e passou a perder altitude mais rápido.

O Swift foi feito para registrar explosões de raios gama, as mais violentas do Universo. Seu trunfo era a velocidade: girava em minutos para observar um evento recém-detectado e avisava outros telescópios para onde olhar. A Nasa descrevia esse papel como o de um “despachante” da astronomia.

OPERAÇÕES ENCERRADAS20OUT

A 275 km de altitude.

REENTRADA NA ATMOSFERA04NOV

9h39 (Brasília) · Sumatra do Norte.

O efeito que encurtou a vida do Swift não é exclusivo dele. A atividade solar amplia o arrasto sobre satélites em órbita baixa. Os que têm propulsão podem compensar a perda de altitude. O Swift não tinha essa opção.