Como o Sol derrubou o telescópio da Nasa que registrava as maiores explosões do Universo
O Swift reentrou na atmosfera após quase 22 anos em órbita. A missão inicial era de dois anos. A Nasa chegou a mandar um robô para salvá-lo, mas não venceu a corrida.

O telescópio espacial Swift, da Nasa, reentrou na atmosfera terrestre às 9h39 (horário de Brasília) na quarta-feira (4), sobre a região de Sumatra do Norte, na Indonésia. O horário e o local foram registrados pela Força Espacial dos Estados Unidos e confirmados pela agência americana.
A Nasa esperava que a maior parte do equipamento, de cerca de 1,5 tonelada, se desintegrasse na descida. Peças de tungstênio e partes de espelhos podem ter resistido. Antes da queda, a agência estimava em 1 em 2.100 a chance de alguém ser atingido por fragmentos. Partes da América do Sul estavam dentro da faixa em que a reentrada poderia ocorrer.
A reentrada encerra quase 22 anos em órbita de um observatório lançado para uma missão inicial de dois anos. A perda de altitude já estava em curso. A atividade do Sol acelerou esse processo.
O espaço não é
um vazio perfeito.
Mesmo muito rarefeito, o ar oferece resistência ao satélite.
O Swift perdia altitude aos poucos.
O Swift não tinha motores para corrigir a própria órbita. Como todo satélite em órbita baixa, sofria o atrito com o pouco de atmosfera que existe a centenas de quilômetros da superfície.
Mais energia. Atmosfera mais alta.
O Sol alterna fases calmas e agitadas em ciclos de cerca de 11 anos. Na fase mais ativa, a energia extra aquece a alta atmosfera, que se expande para cima.
Mais resistência, menos altitude.
Os satélites passam a atravessar um ar mais denso e perdem altitude mais depressa. Em 2024, o Sol chegou ao período de máximo do ciclo atual, com atividade mais intensa que a prevista. Segundo a Nasa, a expansão da atmosfera aumentou o arrasto sobre o Swift.

Cada quilômetro
fazia diferença.
A altitude do lançamento é o ponto de partida.
A missão começava a cerca de 600 km.
No início de 2025, quase todos os modelos da Nasa já apontavam a reentrada para meados de 2026. A atividade solar havia encurtado o tempo disponível para uma intervenção.
Abaixo dos 400 km.
Para ganhar tempo, a Nasa suspendeu a maior parte das observações em fevereiro e passou a manter o telescópio numa posição que reduzia o atrito. Em abril, desligou um dos instrumentos para economizar energia e inclinar os painéis solares de forma a diminuir ainda mais a resistência.
Os 300 km eram um marco crítico para essa missão de resgate: abaixo dessa altitude, elevar o observatório se tornaria cada vez mais difícil.
A 275 km, as operações chegam ao fim.
Sem conseguir compensar os efeitos do arrasto para apontar seus telescópios, o Swift entrou em modo de segurança. A equipe da Universidade Estadual da Pensilvânia enviou o comando que encerrou suas operações. A reentrada aconteceria em 4 de novembro.
Três braços.
Menos de um ano.
Em setembro de 2025, a Nasa contratou a empresa americana Katalyst Space para tentar algo inédito: enviar uma nave robótica para alcançar o Swift, prendê-lo com três braços mecânicos e empurrá-lo para uma órbita mais alta. A empresa teve menos de um ano para projetar, construir, testar e lançar o equipamento.

dar mais tempo ao Swift.
O plano era encontrar, capturar e elevar o telescópio.
Um encontro em órbita.
A nave, chamada LINK, foi lançada em 3 de julho. Seu sistema de orientação usava três rodas de reação, peças que controlam para onde a nave aponta sem gastar combustível.
Duas rodas deixam de funcionar.
A LINK passou a girar sem controle. Segundo a Katalyst, problemas nos sistemas elétricos impediram o funcionamento de duas das três rodas de reação.
Estabilizar a nave consumiu a reserva do resgate.
Os engenheiros recuperaram o controle usando propulsores. Segundo a Katalyst, o consumo deixou combustível insuficiente para elevar o Swift com segurança, além das preocupações com a captura. Em 19 de agosto, a Nasa anunciou que a LINK não tentaria mais capturar o observatório.
A 12 a 15 km do Swift.
A LINK ainda se aproximou do observatório e o fotografou a uma distância entre 12 e 15 quilômetros. Na imagem real abaixo, o Swift aparece como um risco de luz.
A nave de resgate reentrou na atmosfera em 25 de setembro.

O fim da missão.
Depois, a reentrada.
Sem o resgate, a Nasa religou instrumentos para aproveitar o tempo restante. Para observar, o Swift precisava sair da posição de menor atrito e passou a perder altitude mais rápido.
O Swift foi feito para registrar explosões de raios gama, as mais violentas do Universo. Seu trunfo era a velocidade: girava em minutos para observar um evento recém-detectado e avisava outros telescópios para onde olhar. A Nasa descrevia esse papel como o de um “despachante” da astronomia.
A 275 km de altitude.
9h39 (Brasília) · Sumatra do Norte.
O efeito que encurtou a vida do Swift não é exclusivo dele. A atividade solar amplia o arrasto sobre satélites em órbita baixa. Os que têm propulsão podem compensar a perda de altitude. O Swift não tinha essa opção.